No quarto dia de tentativa de vacinação ampla da população brasileira, acentua-se a disputa por dividendos políticos a partir do processo de imunização. Num movimento sem precedentes em outros países, gestores públicos comparecem aos postos para acompanhar o procedimento. No campo oposto, os ministérios da Saúde e das Relações Exteriores se defendem de críticas e do temor da descontinuidade da vacinação.

O temor pela descontinuidade do processo de vacinação já faz com que governadores e prefeitos cogitem a aplicação apenas da primeira dose, que já garantiria uma relativa imunização, reduzindo a propagação do coronavírus. Ainda não há uma orientação clara do Ministério da Saúde sobre o assunto. Fabricantes têm posições divergentes sobre aplicação parcial, que seria eficiente a depender do tipo do imunizante.

Entre os políticos, um dos exemplos mais expressivos é o do governador de São Paulo, João Doria, que passou a dedicar sua agenda de trabalho ao acompanhamento da vacinação. Somente nesta quarta, o tucano esteve em São José dos Campos, Santos e Sorocaba, onde inaugurou pessoalmente o processo e pousou para fotos ao lado de pessoas que recebiam a primeira dose da Coronavac. Nos dias anteriores, esteve em Marília, São José do Rio Preto e Ribeirão Preto, e promoveu o mesmo tipo de evento, sempre em um ambiente de comemoração.

A divulgação dos dados da campanha no estado também é célere. Segundo dados do governo de São Paulo, a Coronavac já teria sido entregue a 645 municípios e, até esta manhã, mais de 25 mil cidadãos teriam recebido a primeira dose da Coronavac – de acordo com o contador eletrônico batizado de “vacinômetro”. O governo estadual também sustenta que consegue imunizar um profissional de saúde a cada 3 minutos.

No campo oposto, os ministérios da Saúde e de Relações Exteriores se defendem de críticas e sustentam que o governo federal garantirá uma campanha de vacinação nacional. Uma campanha publicitária, incluindo um vídeo promocional, deve começar a circular a partir de hoje para divulgar as ações do governo federal. Não há, até o momento, porém, um sistema federal de registro de quem recebeu a primeira dose da vacina e uma campanha específica para orientar a população como proceder.

O Itamaraty e o Planalto sustentam que avançam as tratativas com a China para a liberação IFA – o Ingrediente Farmacêutico Ativo, insumo básico que permitirá a fabricação de milhões de doses de vacinas no Brasil. Garantem que o embaraço é técnico e não político ou diplomático.