A última sexta-feira (18) foi um dia difícil para a técnica de enfermagem Diele Torres da Silva, 32 anos. Depois de 14 dias afastada, com diagnóstico confirmado pelo novo coronavírus (covid-19) voltou ao trabalho na unidade semi-intensiva em Batayporã. Os sintomas e o período de clausura eram traumas recentes e ainda sentidos no corpo, em fase de restabelecimento. 

“A gente fica meio traumatizada”, disse, em entrevista ao Campo Grande News relembrando o que passou nas últimas semanas. “O pior sintoma é o medo; não conseguia dormir, foram 14 dias de bastante angústia, tentava viver um dia de cada vez”.

Diele é técnica de Enfermagem há quatro anos, três em atividade no hospital. Ela acredita que foi infectada por uma colega, com quem dividiu celular e computador para fazer relatório dos pacientes. As duas trabalham na unidade em que foi internada Eleuzi Nascimento, 64 anos, paciente posteriormente transferida para hospital e Dourados, e que viria a ser o primeiro óbito da covid-19 registrado no Estado, no dia 31 de março.

No dia 26 de março, a colega teve febre e tosse e já foi afastada do trabalho. Preventivamente, Diele e outros funcionários que tiveram contato com ela entraram em quarentena.

Os primeiros sintomas vieram quatro dias depois. No dia 31 de março, acordou com fortes dores no corpo, principalmente nas costas. “De cara não achei que fosse coronavírus, pensei que pudesse ser dengue”.

Somente no dia seguinte, quando teve coriza e obstrução nasal, veio o alerta para infecção por covid-19. Acionou o hospital, que fez a coleta de material e, dois dias depois, atestou positivo para a doença.

A preocupação veio acompanhada de outros sintomas: muita náusea, vômito e diarreia, perda de paladar e do olfato. O receio era acompanhado do que conhecia e já tinha acompanhado no hospital. “Tinha medo de acordar e ter algum sintoma novo”. 

Diele ficou isolada no quarto, enquanto o marido, José Henrique, 36 anos, ocupava o resto da casa. A comida era deixada em uma bandeja na porta e os dois só se viam por vídeo chamada. “Nem pela janela”, disse. O marido também passou por exame, negativo para covid-19. 

No 3º dia, veio o pior momento. A avó de 80 anos faleceu, de complicações de câncer. “Não pude ir ao velório, não podia abraçar minha mãe, não podia receber abraço, foi o pior dia de todos”. Diele começou a recorrer mais às crenças religiosas. “Não tinha o hábito de ler a Bíblia, comecei a ler, a me apegar a Deus”.

A técnica de Enfermagem ocupava os dias vendo séries pelo celular e vídeo chamadas com a família. Começou a melhorar a partir do 10º dia. Quando recebeu alta, teve que fazer, sozinha, a desinfecção completa do quarto, uma limpeza que incluía até o forro do quarto. “No dia seguinte, senti fraqueza, amanheci bem mal por conta do esforço”.

O retorno ao trabalho estava previsto para quarta-feira (15), mas só aconteceu na sexta-feira. Mesmo passado o período de quarentena e de ter recebido alta, até hoje, a técnica de enfermagem ainda não restabeleceu por completo o paladar e o olfato.

Voltou para a mesma unidade semi-intensiva, onde apenas um leito estava ocupado, de paciente já descartado para novo coronavírus. "Aqui ainda está tranquilo", disse.

A doença mudou os planos dela e do marido. Os dois se casaram no dia 2 de novembro de 2019, e planejavam ter filhos somente em 2021. “Não quero adiar mais nada, quero filho para este ano, na hora que acabar essa pandemia”.