Os primeiros raios de sol surgem imponente no horizonte. Dentro de casa, João desperta e se veste com as roupas do dia a dia. Ao chegar à cozinha, a primeira coisa que faz é colocar sobre o fogão à lenha uma panela com água para ferver. Dali uns instantes, ele toma os primeiros goles de chimarrão, ainda com a brisa gelada da manhã balançando as árvores do lado de fora.
Ainda com a cuia de chimarrão em uma das mãos, João prepara um prato caprichado de quebra-torto para forrar a barriga antes de sair para trabalhar no campo. O alimento une arroz carreteiro de carne de sol, ovo, farofa e outros alimentos do dia anterior que possam garantir ao pantaneiro a força que precisa para enfrentar as horas sob o sol que promete esquentar.

Quebra-torto é desjejum dos pantaneiros. — Foto: Reprodução/LunaGarcia

Ainda não amanheceu por completo quando João alcança um copo de água e mistura guaraná em pó. O líquido desce pela garganta dele com a promessa de mais energia mesmo com o passar das horas.
No sapucuá, bolsa típica que acompanha o peão no campo, ele guarda a matula — comida que vai levar para as horas de trabalho. João passa pela porta de madeira e é agraciado com o aroma matinal que refresca e termina de despertá-lo.
 

Sabor e força vindos da natureza
 
João é um personagem fictício criado para esta matéria, que representa os homens pantaneiros. Poderia ser José Leôncio, figura importante da novela Pantanal, que estreou nesta semana. Ou então, Gerverson, peão que trabalha em uma fazenda em Ladário (MS).

Seja em fazendas diferentes, em funções diversas no campo, os pantaneiros se conectam por vários aspectos, entre eles a comida. A culinária com características marcantes, a presença forte da carne vermelha e o preparo dos alimentos ricos em sabor são elementos que tornam o Pantanal ainda mais único.
Da natureza vem os ingredientes necessários para todos os pratos. Animais e vegetais compõem as refeições de sabores fortes e nutrientes essenciais para a vivência em meio à maior planície alagada do mundo.
Para a construção do cardápio do pantaneiro, o g1 MS consultou a pesquisadora, escritora e integrante da Academia Feminina de Letras e Artes de Mato Grosso do Sul (Aflams), Marlei Sigrist e o pesquisador e chef de cozinha do que instituto leva o nome dele e do Food Safaris, Paulo Machado.

Matula
 
Quando o sol já está a pino, João para seu cavalo sob um árvore e abre o sapicuá. De dentro da bolsa de couro, ele pega um pedaço de sopa paraguaia. Há décadas se alimentando desta espécie de torta, ele estranha quando turistas, que passam pela fazenda, surpreendem-se com o fato de que o alimento não é líquido.

A massa formada de milho verde debulhado, fubá, leite, queijo e muita cebola está presente no dia a dia dos pantaneiros. "Nós temos uma influência muito grande da culinária paraguaia”, pontua Sigrist.

Sopa paraguaia é destaque da influência do país vizinho. — Foto: Reprodução/LunaGarcia

Na sequência, João degusta da paçoca pantaneira. Novamente, o alimento é diferente daquilo que as pessoas imaginam de início. Salgada, feita com carne seca frita, banha de porco e farinha de mandioca torrada, a paçoca inunda a boca do peão com a crocância.

Paçoca de carne-seca é feita com temperos amassados no pilão. — Foto: Reprodução/LunaGarcia

Tudo se aproveita
 
De volta em casa, na hora do almoço, João senta à mesa onde há uma travessa com um suculento pacu assado na folha de bananeira. Ao redor da mesa, ele e a grande família aproveitam o animal que foi pescado recentemente. Umedecido com limão e acompanhado por farofa de banana da terra, o prato é servido junto ao arroz com pequi.

Pacu na folha da bananeira. — Foto: Reprodução/LunaGarcia

No Pantanal, tudo se aproveita. Da banana, não só o fruto é usado, mas também as folhas e a casca. Do gado, cada parte é usada em pratos diferentes. O respeito pela natureza é grande, assim como o cuidado para preservar aquilo que os mantêm.

De sobremesa, a família de João come doce de jaracatiá. “É muito gostoso, o sabor dele parece de coco ralado, o coco ralado com as casquinhas, que fica mais escuro”, comenta Sigrist.
Da árvore também é feito chá. “Eles servem também de lombrigueiro, para fazer chá para lombriga, para criança é ótimo”, cita a pesquisadora. Ela relata um costume interessante que contribui para a regeneração do jaracatiá.
 

“O caule dele, se você pega um pedaço desse caule, retira a polpa, e a casca de fora você gruda de novo no tronco, amarra com um pedaço de pano, ele regenera, é igual ao rabo de lagartixa” conta Sigrist, sem perder o humor.
 
Na volta ao campo, João quase esquece algo imprescindível no dia do pantaneiro. “Onde deixei minha guampa?”, questiona-se. Na varanda da casa, ele encontra o objeto feito com a ponta do chifre de boi. “Sem tereré não dá”, resmunga para si subindo novamente em seu cavalo.
Ao longo da tarde, ele divide com os amigos a guampa com a bebida gelada, preparada com erva-mate.
 

Encontro de gerações
 
Após o dia de trabalho, João se reúne com amigos e familiares ao ar livre, sob a luz do luar. O som da mata é momentaneamente abafado pelo toque das violas caipiras, que eles tocam.

Em um buraco no chão, eles montam uma estrutura com pedaços de bambu, onde fincam a carne para ser assada. O churrasco pantaneiro une gerações ao redor do braseiro, em rodas de conversa, com muita música.

O chef de cozinha Paulo Machado possui um livro sobre a culinária do Pantanal. — Foto: Reprodução/LunaGarcia

“O churrasco não é só do gaúcho, não é só do uruguaio, não é só do argentino, ele é também do pantaneiro. Porque esse hábito de fazer churrasco desse jeito, assando a carne no chão, é uma cultura indígena”, destaca Sigrist.
 
Característica exclusiva do churrasco pantaneiro, a mandioca não poderia ficar de fora desta reunião, assim como o vinagrete, ambos preparados pelas mulheres da casa. A carne que não é consumida durante a noite, é usada no preparo do arroz carreteiro que vai formar o quebra-torto do dia seguinte.

Seguindo a cultura de que tudo se aproveita, João sorri vendo a carne assar, pois sabe que no almoço seguinte irá saborear de um delicioso arroz com bochecha de boi, um de seus pratos favoritos.
Apesar da rotina, no Pantanal cada dia é um dia. Ao contrário do que se vê nas cidades, em que os prédios permanecem exatamente iguais com o passar do tempo, na natureza diariamente tudo se transforma.
Lá, em contato direto e constante com ela, está o homem pantaneiro. Os animais, os frutos e a vegetação servem como fonte de renda, mas também como alimento diário. E de experiência gastronômica, nada se iguala ao Pantanal.