Criadas na década de 70 as refinarias brasileiras foram construídas para refinar o que vinha do exterior (óleo mais leve)

O Brasil atualmente possui 13 refinarias, mas elas não têm como trabalhar somente com o óleo brasileiro, explicam especialistas.

Desde o início, as refinarias não foram construídas para refinar o petróleo brasileiro. Refinavam petróleo importado, que em maior parte vinha do Oriente Médio, diz Rosemarie Bröker Bone, coordenadora do Laboratório de Economia e professora da Escola Politécnica da Universidade Federal do RJ (UFRJ).

Criada em 1953, a Petrobras surgiu a partir de lei sancionada pelo presidente Getúlio Vargas. Nos anos 60 a 70, não tínhamos petróleo suficiente para refino, mas já tínhamos das empresas montadoras de carros, demandas por derivados e por esse motivo importávamos petróleo também, orienta.

Originalmente, existem diferentes tipos de petróleo e as refinarias brasileiras foram construídas desde o início para processar o petróleo importado, que é mais leve, e não o petróleo próprio que ela produz no Brasil, que é mais pesado.

A importação atual, então, se dá por uma questão “tecnológica”, e principalmente pela “falta de investimentos”.

Nossas refinarias recorrem a uma mistura do petróleo brasileiro – mais pesado, com petróleo importado – mais leve (como o nigeriano ou árabe), para conseguirmos refinar nosso petróleo.

Contudo, a Petrobras sempre teve como estratégia focar em exploração e produção de petróleo e não investiu o suficiente nas refinarias no Brasil e desta forma elas ficaram tecnologicamente ultrapassadas e sendo assim, não conseguem refinar todo o petróleo que produzimos.

Importação de derivados

Segundo Fernanda Delgado, doutora em Planejamento Energético e coordenadora de pesquisa do centro de estudos FGV Energia, o que o país extrai, na teoria, seria suficiente para atender à demanda nacional, até porque se produz mais do que se consome, mas existem diferenças entre a tecnologia para refinar e o tipo de petróleo que temos.

De acordo com Paulo Couto, coordenador do LRAP (Laboratório de Recuperação Avançada de Petróleo), da Coppe/UFRJ e professor da Escola Politécnica da universidade, apesar de sermos autossuficientes em petróleo, não conseguimos refinar grande parte do petróleo produzido para suprir a demanda interna por outros derivados.

Assim, exportamos petróleo, mas somos obrigados a importar combustíveis e derivados até hoje, como a gasolina e principalmente o diesel.

Conforme orienta o professor do instituto de economia da UFRJ e pesquisador do INEEP – Instituto de Pesquisa do Setor Petróleo, Eduardo Costa Pinto, a atual política de preços praticada pela Petrobras, de competir de acordo com as condições de mercado internacional, permite que se viabilize a importação dos derivados.

Porquê a Petrobras ao invés de vender suas refinarias, não investiu para aumentar o nível de utilização dos serviços de refino para não mais ter que importar os derivados?

Para Eduardo, a Petrobras poderia reduzir os preços dos combustíveis, se refinasse mais para atender o mercado interno e assim dependeríamos menos da importação de derivados. 

Vender as refinarias e priorizar a exploração e produção de petróleo, especialmente no pré-sal, reduzindo a participação nos demais negócios é a estratégia da Petrobras e desta forma, o governo planeja vender oito refinarias. 

Consequências das vendas das refinarias brasileiras

O problema é que enquanto atingimos a independência de petróleo, criamos ao mesmo tempo uma dependência total da importação de derivados, mesmo tendo refinarias atualmente.

Se houvessem investimentos nas refinarias, com melhorias tecnológicas de refino do nosso petróleo, a expectativa seria de que promovesse o desatrelamento do mercado brasileiro em relação ao mercado internacional e com isso não precisaríamos importar mais os derivados. 

Relata Fernanda Delgado da FGV, que o ideal é que a gente produza óleo cru e exporte gasolina, diesel e derivados, ou seja, produtos com valor agregado.

Redação – Brasil do Trecho