Desmontados após meses de pouco uso, os dois hospitais de campanha montados pelo governo de Mato Grosso do Sul em 2020 custaram R$ 23,7 milhões, conforme relatórios financeiros da SES (Secretaria de Estado de Saúde). Apenas a unidade instalada no Hospital Regional Rosa Pedrossian, em Campo Grande, consumiu R$ 15,2 milhões.

Os relatórios são referentes aos três quadrimestres do ano passado. Apenas para a montagem do hospital de campanha do HRMS, a administração de Reinaldo Azambuja (PSDB) desembolsou R$ 1,4 milhão. A unidade operou por cinco meses.

No segundo quadrimestre de 2020, entre maio e agosto, a estrutura consumiu R$ 13,7 milhões. Agosto marcou a desmontagem do hospital de campanha, após ficar vários meses sem uso.

A estrutura de contêineres foi retirada aos poucos, a partir de agosto, pois, segundo afirmou na ocasião o secretário de estado de Saúde, Geraldo Resende, o local estava sem uso. “Ou porque os pacientes são casos leves demais para serem atendidos pela estrutura, ou porque necessitam de atendimento muito complexo de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), internação, para que a gente mantenha aquela unidade lá. Por isso, vamos desativar aos poucos”, afirmou na ocasião.

Ponta Porã
O Hospital Regional Dr. José de Simone Netto, em Ponta Porã, também teve uma estrutura provisória. O hospital de campanha da cidade fronteiriça ao Paraguai foi aberto em agosto, mas durou apenas dois meses.

Em outubro, o governo também decidiu fechar a unidade. 40 leitos clínicos foram transferidos para o Hospital Regional. Esta e outras mudanças custam R$ 3,6 milhões.

Esse foi o terceiro quadrimestre, de setembro a dezembro. Mesmo desativadas, as unidades ainda resultaram em gastos de R$ 8,4 milhões.

Somados, os dois hospitais de campanha consumiram R$ 23,7 milhões. No relatório final de gastos da pandemia em 2020, foram incluídos neste montante outras ações de infraestrutura, como barreiras sanitárias.

Leitos
Se esses recursos fossem investidos apenas na abertura de leitos de UTI (Unidades de Terapia Intensiva), seria possível abrir 14,8 mil vagas. Esse número não leva em conta a necessidade de contratação de pessoal para a manutenção dos leitos.

Apenas em Campo Grande, poderiam ser abertos 8,5 mil leitos de UTI. O cálculo considera o custo médio de manutenção de uma vaga, entre R$ 1,6 mil e R$ 1,8 mil. Um contrato celebrado em maio de 2020, por exemplo, previa custo de R$ 1,6 mil.

Briga na Justiça
Em março deste ano, um vídeo viralizou nas redes sociais mostrando diversas camas armazenadas no Centro de Convenções Albano Franco, em Campo Grande. Elas pertenciam aos dois hospitais de campanha.

A situação exposta no vídeo gerou revolta na população por conta do número de camas e caixas com máscaras, luvas, aventais e outros equipamentos armazenados. “Enquanto isso estão reclamando que não tem leitos nos hospitais, que estão tudo cheios”, disse uma internauta. “Vergonha! Nosso dinheiro parado aí”, escreveu outra. Não há informações sobre quem gravou ou quanto o vídeo foi gravado.

Na época, a SES informou que a Fiems (Federação das Indústrias do Estado) cedeu o Centro de Convenções para que o Estado armazenasse equipamentos hospitalares durante a pandemia.

O motivo das camas terem ficado paradas é que uma das empresas que participou da licitação foi à Justiça questionar o resultado, que gerou gastos de quase R$ 700 mil a mais do que a segunda colocada ofereceu.

A Hospi Bio Indústria recorreu ao TJMS (Tribunal de Justiça), que acolheu embargos de declaração movido pela empresa Hospi Bio Indústria e, parcialmente, pelo Estado de Mato Grosso do Sul contra decisão judicial que suspendeu processo de licitação polêmico. Na prática, a decisão reforma deixa o governo livre para definir administrativamente a destinação dos equipamentos.

Assim, o Governo do Estado decidiu destinar parte das camas ao HRMS e as demais para hospitais do interior.

MPF de olho
No mês de abril, a subprocuradora-geral da República Lindôra Araújo pediu informações sobre as duas unidades temporárias desmontadas. Segundo divulgou o MPF (Ministério Público Federal), as respostas ao primeiro ofício, enviado em março, foram consideradas insuficientes ou incompletas. Agora, o órgão quer saber mais sobre os recursos aplicados e sobre a falta de leitos em pleno ápice da pandemia.

O MPF publicou um resumo das respostas aos questionamentos feitos no mês passado. Em resposta ao MPF, o Governo do Estado afirmou que alugou as estruturas para montagem dos hospitais e, portanto, foram devolvidas aos fornecedores. Já os insumos e equipamentos foram para o almoxarifado da SES, “para redistribuição às unidades hospitalares, conforme demanda”.